A Manga de Chinatown
Desde criança aprendi que comida boa é aquela que faz mal ao corpo. Ou pelo menos assim fui educado. Não culpo ninguém, além de mim, por gostar de comidas "não-saudáveis", realmente o prazer que me proporciona acaba sendo maior do que ter um corpo que funciona bem. Como todo ser humano, sinto gosto por alguns alimentos saudáveis também. A manga, na escala, está entre os cinco melhores alimentos do mundo. Se eu tivesse perdido em uma ilha deserta com uma lâmpada e um gênio, quem me desse o direito a fazer três pedidos, definitivamente eu pensaria em manga. Só não tenho certeza se realmente ficaria com ela. Dependeria da fome.
Lembro-me das ceias de natal da infância, sempre tão saborosas e apetitosas. E nessas ceias, sempre havia aquela travessa de mangas cortadas em gomos que mais parecem besouros. Adorava os besouros de manga. Até que descobri que a melhor maneira de saborear a fruta, era comê-la diretamente do pé, com um pano de prato numa mão e a faca na outra. Se não me falha a memória, eu comi muitas mangas nos pés de uma cidade bem pequena do interior de São Paulo, Santa Maria da Serra, ou como diria uma amiga moradora de lá, Saint Marri de la Serra. Lembro dos fiapos que grudavam aos meus dentes e eram impossivéis de arrancar. Lembro do pano de prato completamente laranjas, sujos, grudentos. Essa fruta realmente faz-me recordar ótimos momentos.
Os anos passaram-se, a infância ficou apenas na memória, entretanto, o desejo pela fruta permaneceu. Ainda é uma das poucas que me causa ânsia. Sempre que vejo, não importa aonde esteja, paro, vejo, penso e levo. Se bem que de uns tempos para cá, nem mais isso eu faço. Já me desiludi tanto que hoje, a manga tem que fazer por merecer. Estar apresentável. Suculante, eu diria.
E por esses dias, encontrei num lugar totalmente inusitado, mangas rosas. Daquelas que até parecem de cera. Não exitei. Comprei-a por uma fortuna! Ainda assim, pagaria o dobro. Um tiro no escuro, pensava. Mas no fundo sentia que aquela seria A manga. Aquela que estava buscando há meses. Aquela que não encontrei na Califórnia de jeito nenhum. Que busquei em mercados chineses, mexicanos, equatorianos, brasileiros, vietnamitas, tailandeses, japoneses. Todos esses mercados de nacionalidade de imigrantes. Porque americano acha que Snapple é suco. Se não estão acostumados nem com suco, quisá frutas. Desculpa a ignorância, eles têm no suco de laranja no mercado!
Já comprei umas cinco lebres achando que era gato. Cada Manga ruim. Além de secas, amargas. Puta que pariu! Se a fruta está seca, pode-se decontar, mas amarga não pode!
Acabei por trazer a manga lá da barraquinha do seu Ching Ling no meio da Mott Street. No caminho de volta, a fruta não me saia à cabeça. A estampa estava tão radiante que nem na música estava prestando atenção. Depois da viagem, voltei para casa e o desejo momentâneamente passou. Acabara de almoçar um enorme prato de camarão, cogumelos e brócolis refogados. Comida só dali a quatro horas.
A noite chegou, trazendo consigo a fome. E a manga, coitada, dentro da mala ainda, enorlada numa sacola plástica próxima ao meu casaco. Por esquecimento acabei por jantar fora. Uma comida péssima, por sinal. Ao final, algo me atiçava. Sentia que faltava algo para me saciar. Resolvi pedir um pavê de sonho de valsa que estava à mostra na geladeira da lanchonete. Na primeira colherada, senti um gosto amargo. Um gosto estragado. Senti-me mal! Expliquei a situação ao atendente e devolvi a sobremesa. Foi então quando me lembrei da manga na mochila.
Ao chegar em casa, subi direto ao quarto. Passei na cozinha, agarrei um pano de prato e uma faca, e devorei a iguaria por meia hora. Nem ao menos prestei atenção no filme que passava na televisão. Se a casa estivesse em chamas, ainda assim não ligaria. Cada mordida era única. Extremamente prazerosa. Ao final, joguei o caroço fora. Acendi um cigarro e por tantas outras vezes, comia a fruta em minha mente. Jurei a mim que na próxima folga voltaria a barraca do Seu Ching Ling. A verdade é que nunca mais botei meus pés lá. Entretanto, um sentimento carrego comigo. De que vontade eu não passo mais. Quando bater o desespero, pego o trem, pego o metro, ando cinco minutos, mas volto com uma manga na mochila. Não qualquer, mas a manga de Chinatown.
Lembro-me das ceias de natal da infância, sempre tão saborosas e apetitosas. E nessas ceias, sempre havia aquela travessa de mangas cortadas em gomos que mais parecem besouros. Adorava os besouros de manga. Até que descobri que a melhor maneira de saborear a fruta, era comê-la diretamente do pé, com um pano de prato numa mão e a faca na outra. Se não me falha a memória, eu comi muitas mangas nos pés de uma cidade bem pequena do interior de São Paulo, Santa Maria da Serra, ou como diria uma amiga moradora de lá, Saint Marri de la Serra. Lembro dos fiapos que grudavam aos meus dentes e eram impossivéis de arrancar. Lembro do pano de prato completamente laranjas, sujos, grudentos. Essa fruta realmente faz-me recordar ótimos momentos.
Os anos passaram-se, a infância ficou apenas na memória, entretanto, o desejo pela fruta permaneceu. Ainda é uma das poucas que me causa ânsia. Sempre que vejo, não importa aonde esteja, paro, vejo, penso e levo. Se bem que de uns tempos para cá, nem mais isso eu faço. Já me desiludi tanto que hoje, a manga tem que fazer por merecer. Estar apresentável. Suculante, eu diria.
E por esses dias, encontrei num lugar totalmente inusitado, mangas rosas. Daquelas que até parecem de cera. Não exitei. Comprei-a por uma fortuna! Ainda assim, pagaria o dobro. Um tiro no escuro, pensava. Mas no fundo sentia que aquela seria A manga. Aquela que estava buscando há meses. Aquela que não encontrei na Califórnia de jeito nenhum. Que busquei em mercados chineses, mexicanos, equatorianos, brasileiros, vietnamitas, tailandeses, japoneses. Todos esses mercados de nacionalidade de imigrantes. Porque americano acha que Snapple é suco. Se não estão acostumados nem com suco, quisá frutas. Desculpa a ignorância, eles têm no suco de laranja no mercado!
Já comprei umas cinco lebres achando que era gato. Cada Manga ruim. Além de secas, amargas. Puta que pariu! Se a fruta está seca, pode-se decontar, mas amarga não pode!
Acabei por trazer a manga lá da barraquinha do seu Ching Ling no meio da Mott Street. No caminho de volta, a fruta não me saia à cabeça. A estampa estava tão radiante que nem na música estava prestando atenção. Depois da viagem, voltei para casa e o desejo momentâneamente passou. Acabara de almoçar um enorme prato de camarão, cogumelos e brócolis refogados. Comida só dali a quatro horas.
A noite chegou, trazendo consigo a fome. E a manga, coitada, dentro da mala ainda, enorlada numa sacola plástica próxima ao meu casaco. Por esquecimento acabei por jantar fora. Uma comida péssima, por sinal. Ao final, algo me atiçava. Sentia que faltava algo para me saciar. Resolvi pedir um pavê de sonho de valsa que estava à mostra na geladeira da lanchonete. Na primeira colherada, senti um gosto amargo. Um gosto estragado. Senti-me mal! Expliquei a situação ao atendente e devolvi a sobremesa. Foi então quando me lembrei da manga na mochila.
Ao chegar em casa, subi direto ao quarto. Passei na cozinha, agarrei um pano de prato e uma faca, e devorei a iguaria por meia hora. Nem ao menos prestei atenção no filme que passava na televisão. Se a casa estivesse em chamas, ainda assim não ligaria. Cada mordida era única. Extremamente prazerosa. Ao final, joguei o caroço fora. Acendi um cigarro e por tantas outras vezes, comia a fruta em minha mente. Jurei a mim que na próxima folga voltaria a barraca do Seu Ching Ling. A verdade é que nunca mais botei meus pés lá. Entretanto, um sentimento carrego comigo. De que vontade eu não passo mais. Quando bater o desespero, pego o trem, pego o metro, ando cinco minutos, mas volto com uma manga na mochila. Não qualquer, mas a manga de Chinatown.


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