A senhora e o tempo
A cara é de quem esta sempre aflita. Quando a vejo passar, Sra. Nunes como é conhecida na região, procura algo. A insatisfação transparecida em sua feição causa-me curiosidades. Seu mundo é outro; habita esse à passeio, definitivamente. Quase sempre a vejo na Adams, ao pé do restaurante. Quando cruzamos olhares, sempre me pergunta sobre vários assuntos; entre eles, o clima da cidade e a quantas anda o meu trabalho. Se estou ocupado ou não. Cansado, satisfeito. A impressão é que toda essa preocupação não passa de um gesto carinhoso. Apesar de seus olhares profundos e penetrantes.
O visual da Nunes é, para os padrões do lugar, até que aceitável. O povo desta comunidade portuguesa, bem usam pedaços de roupas que o servem para tapar o corpo. Não há industria fashion como no mundo moderno. Ou se há, é algo limitado. As blusas parecem contar histórias de gerações combinando ao comportamento de todos aqui.
Ela vive há uma quadra da frangaria, vez ou outra manda levar a sua casa no 820 da Raymond Boulevard, first floor. E segundo meus chefes, sempre pergunta se sou eu ou o Samuel quem levará. Já atendi diversas chamadas suas.
Quando liga, primeiro quer saber o cardápio. As vezes pede uma sugestão, mas nota-se que faz parte da rotina. Opta constantemente pela tradicional ave. No fim indaga o preço e acrescenta ao recepcionista as “duas dolinhas” do entregador. “Mas não demora? Pois sim?” “Não se preocupa senhora.” Por viver tão perto, sua ordem é a primeira a ser entregue. Nem carro me é necessário. Sempre carrego o rádio no bolso. Chega a ser prazeroso.
Manda-me entrar a casa e pousar a encomenda à mesa. Em cima daqueles protetores específicos para comida quente. Os mesmos que lembra a minha avó e suas enpreitadas culinárias. O dinheiro está separado ao lado do movél da cozinha e ela faz questão de conferi-lo na minha frente. Nunca esquecendo-se dos extras. Agradeço, jogo um pouco de conversa. Ela tece um comentário doce sobre a nora brasileira. A mim parece mais uma desculpa para se excluir do racismo comum. E na verdade é bom ouvir. Usa provérbios populares para desconversar, abre-me a porta e deseja um bom dia.
Ligo o rádio novamente, aperto meu passo e rio-me por dentro imaginando como se porta perante aos outros. Ora mãe devota, ora mulher exemplar, ora sogra perfeita. Mas sei que isso tudo não passa de teatro. No fundo, dentro das suas caraminholas, ela comanda um espetáculo majestoso. Tudo parece ser muito fácil a ela. Que está a procura de algo muito distante. E talvez nunca encontre. Quem sabe não seja essa sua grande tarefa?
O visual da Nunes é, para os padrões do lugar, até que aceitável. O povo desta comunidade portuguesa, bem usam pedaços de roupas que o servem para tapar o corpo. Não há industria fashion como no mundo moderno. Ou se há, é algo limitado. As blusas parecem contar histórias de gerações combinando ao comportamento de todos aqui.
Ela vive há uma quadra da frangaria, vez ou outra manda levar a sua casa no 820 da Raymond Boulevard, first floor. E segundo meus chefes, sempre pergunta se sou eu ou o Samuel quem levará. Já atendi diversas chamadas suas.
Quando liga, primeiro quer saber o cardápio. As vezes pede uma sugestão, mas nota-se que faz parte da rotina. Opta constantemente pela tradicional ave. No fim indaga o preço e acrescenta ao recepcionista as “duas dolinhas” do entregador. “Mas não demora? Pois sim?” “Não se preocupa senhora.” Por viver tão perto, sua ordem é a primeira a ser entregue. Nem carro me é necessário. Sempre carrego o rádio no bolso. Chega a ser prazeroso.
Manda-me entrar a casa e pousar a encomenda à mesa. Em cima daqueles protetores específicos para comida quente. Os mesmos que lembra a minha avó e suas enpreitadas culinárias. O dinheiro está separado ao lado do movél da cozinha e ela faz questão de conferi-lo na minha frente. Nunca esquecendo-se dos extras. Agradeço, jogo um pouco de conversa. Ela tece um comentário doce sobre a nora brasileira. A mim parece mais uma desculpa para se excluir do racismo comum. E na verdade é bom ouvir. Usa provérbios populares para desconversar, abre-me a porta e deseja um bom dia.
Ligo o rádio novamente, aperto meu passo e rio-me por dentro imaginando como se porta perante aos outros. Ora mãe devota, ora mulher exemplar, ora sogra perfeita. Mas sei que isso tudo não passa de teatro. No fundo, dentro das suas caraminholas, ela comanda um espetáculo majestoso. Tudo parece ser muito fácil a ela. Que está a procura de algo muito distante. E talvez nunca encontre. Quem sabe não seja essa sua grande tarefa?


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