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opinativo, reclamão, relaxado, fumante, irônico, sincero, emburrado, feliz.

Tuesday, March 14, 2006

o aniversário do fotógrafo

- A mamãe trouxe um presente tão lindo! Abra agora na frente dos amigos.
- Olá mãe. Que bom que veio. Pensei...
- E como deixaria de vir? Sabe como sou. Sempre apareço, nunca na hora exata.

A essa altura, Bernardo ja havia acompanhado uns dois casais de amigos até a porta. O clima, para o fotógrafo, era de até mais, quando ela chegou. Em um canto da sala, Marina contava à Paula sobre um tal filme que vira na véspera. Um grupo de jovens ria alto na cozinha. A fumaça que empestiava a área definitivamente não era de bolo queimado. Mas tudo estava sob controle. Afinal, era sábado. E nos apartamentos da Vila Madalena, a tolerância era maior aos finais de semana.
O cuco da sala soava meia-noite quando as luzes se apagaram. O fotógrafo, coitado, não entendeu nada. As palmas começaram a aumentar puxados pelas mãos de sua mãe. "Sempre envergonha-me", pensava irritado. "Há trinta anos que aguento tudo isso. Nunca muda". Tolo, Bernardo enchia sua cabeça de raiva. Usava sua mãe por ser mais fácil. Depois de soprar as intermináveis velas que cobriam um bolo Prestígio, o seu predileto, esquivou-se por um momento, escondendo-se em seu quarto.
De fundo escutava a Robertinha gritar:
-Cadê o aniversariante? Queremos bolo. De quem será o primeiro pedaço? Apareça trintão.

Ela me paga. Essa anã disfarçada de amiga. Ressoava dentro de si. Para ele, aquele circo de horrores que acontecia em sua própria casa serviria somente para tornar ainda mais miserável sua vida. Estava com a cabeça atolada de trabalhos intermináveis. Tinha o prazo de sua mostra praticamente estourado. Dois dias! Quarenta e oito horas para conseguir preparar o material e enviar. Ai então torturou-se mais uma vez com a idéia de que alguns amigos ja haviam pedido para esticarem-se por la mesmo. O aniversariante estava perdido. Passou de anfitrião à gerente de albergue de pobres. Isso que dá ter amigos que moram em cidades satélites.

Depois de alguns minutos voltou e encontrou a sala quieta, o bolo em pedaços, o barulho do gás do refrigerante ecoando aos copos. Só pensava em como começar a limpar a bagunça. E a vaca da Robertinha a distribuir pela sala vários flyers do after que rolaria na Bandeirantes. Bernardo começou a se lembrar qual dos amigos que ficariam para a noite. E bemq ue tentou arrumar carona para eles. Mas nada se encaixava. O Tadeu e a Marina são de São Roque e a Rebecca é de Guarulhos. Estou perdido.

Por fim, decidiu que a festa seria a melhor alternativa. Desestressar um pouco, conversar com os amigos, dar um pouco risada. E por que não? Comemorar o aniversário. Depois de delicadamente despitar a mãe, que não desgrudava da Robertinha, já totalmente entorpecida, o fotógrafo partiu em seu carro rumo ao interior.

-Quem é que toca?
-Interessa?
-Claro que sim, senão não perguntava.
-Ihhh... Eu é que não quero fazer trinta anos! Que mal humor...
-Mas ta perto não tá?
- Não, pelo mapa nos falta umas cinco sinalizações e sem contar que...
- Quero dizer o seu aniversário.
- Não vamos tocar nesse assunto, você sabe, eu não gosto.
- Até quando vai levar a vida a base de bebida e droga? Daqui a pouco fica pra titia...
- Qual o seu problema?
- Nenhum, o troco está dado. Isso é por ficar tentando levar a minha mãe conosco. Pensa que não vi vocês conversando ali, bem juntinhas... E que ainda tive que barrá-la do after. Não muda você também. São quantos anos de atormentação já?
- Be, você sabe que eu amo a sua mãe. Tipo assim, eu queria muito que ela fosse. Não consegue se acertar com ela! Nem parecem família. E são quinze anos já, não se lembra?
- Agora vem você com o discursinho fajuto de família... Falou então Roberta Amo Minha Família Gonçalves. Nossa! Mas que relacionamento divino tem com seu pai. E a sua mãe então? Realmente essa foi boa. Às vezes me esqueço que te conheço a tanto tempo...
- Cala a boca e aumenta o som. Que hoje vamos até as nove, no mínimo. O Pet Duo vai dar o som lá pelas seis.
- Eu to ficando velho para essas coisas. Amanhã tenho muita coisa para fazer. Vou ficar o dia inteiro no estúdio e você? Eu te digo: dormindo até as cinco da tarde, como sempre fez.
- Eu te prometo que fico lá com você.
- Diz isso porque sabe que não deixaria. Você só me atrapalha, isso sim.

Depois de trinta minutos, chegaram à festa. Todos se dispersaram. Assim é melhor, pensou. Por lá encontrou uma meia dúzia de conhecidos. Jogou conversa fora, falou sobre o trabalho. Estava a bocejar quando viu Robertinha pulando feito louca na pista.

-Está bem?
-Sim. Ótima! Cara, eu te amo muito viu, não fica assim. Dá um soriso. Ah, já sei, vem aqui.
-Eu estava indo lá no bar pegar uma aguá...
- Nossa, água, vamos. Vamos sim.
- Tá com o que em cima? Te conheço de outros afters.
- Então, tipo eu quero te dar um presente.
- Mas já me deu. Adorei a camiseta, por sinal.
- Aquela foi só uma lembrancinha. Quero te dar uma outra.
- Você viu a Marina e o Tadeu por aí?
- Hã? Quem? Toma. Special Edition.
- To fora. Vou dirijir daqui a pouco...
- Mas ainda são três. Vai ficar para o Pet Duo, não vai?
- Quer saber? Passa aí.

Já passara das sete horas quando olhou o relógio. Não parava de perguntar aos conhecidos pela Robertinha. Nem mesmo a Rebecca estava por lá. O sol estava começando a se fortalecer quando viu Marina correr em direção ao banheiro.

-Peraí. Aonde se meteu a noite inteira?
- Já te explico. Deixa eu só fazer xixi.
- Mas cadê o Tadeu? E a Robertinha?
- A Robertinha vi agora mesmo. O Tadeu pegou carona com o Fabricio. Já volto.

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-Mas então?
-Nossa cara. O set foi muito bom...
-Nem me diga.
-Cadê a galera?
-A Rô estava ali com o Uca. Esses dois ainda casam.
-Essa está perdida mesmo...
-E eu fiquei com o Sasha, um amigo nada a ver que encontrei por aí.
- Estão prontos? Estou partindo.
- Ah, então... eu vou ficar. Faz assim, amanhã, quando acordar, eu te ligo. Para passar na sua casa e pegar minhas coisas, pode ser?
- Mas liga antes porque eu estarei no estúdio. Muito trabalho.
- Nossa. Deixa pra segunda... vai descansar aniversairante. Vi BEM você ali uma hora. Todo curtindo.
- Não esquece de ligar.
- Tá!
-Ah, avisa aquela anã por mim.
- OK! Tchau. Bom trabalho!

No caminho de volta, lembrou-se da Rebecca. Já era tarde para qualquer coisa. Ou cedo. Parou na padaria da esquina de casa. Tomou um pingado e comeu um pão. Folheou o jornal antes de começar a preparar suas coisas. Deparou-se com a casa pós-festa. Jurou a si mesmo nunca mais abrigar tanta gente porca junta. "Meu próximo aniversário eu faço num bar. Quanta garrafa... Ah..."
O jornal estava interessante. As matérias e os artigos iam passando e o fotógrafo nada de arrumar seus materiais. Eram já onze e quinze quando começou a se sentir cansado. Decidiu que não trabalharia no domingo. "Dia santo!" Ou que o faria quando acordasse. Afinal, o estúdio era dele. Não haveria problemas em madrugar a próxima noite e acabar de vez com o que sobrara. Deitou `a cama. Fez duas ligações. Certificou-se que tudo estava bem e caiu num sono profundo.
O aniversário do fotógrafo, esse triste artista que se esconde atrás de seus tarbalhos, encerrou como começou. Com pensamentos isolados, depressivos, descontentes. Ainda assim, produtivos. O próximo trabalho para ele, já estava em sua cabeça. Antes mesmo de acabar aquele que originou todo o nervosismo, Bernardo matutava com suas lentes.

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