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opinativo, reclamão, relaxado, fumante, irônico, sincero, emburrado, feliz.

Tuesday, March 14, 2006

todo artista brasileiro se envolve com alguma russa

Ela e linda! E loira. Chama-se Carina Svraslavana. Muito russa. Chamou minha atencao naquela noite calorosa de julho. Era uma quarta-feria quando a vi passar. Todos vimos ela ir e vir, um direito que, para ela, parecia divino. Seus olhos caramelo denunciam a tristeza que guarda no peito. Carina sofre porque nao carrega consigo papeis. Carina sofre pois sua mae, uma cidada de Moscou, nao tem trabalho. Ou pior, perspectiva.
Carina me disse, na mesma noite em que a vi passar como se o mundo girasse ao seu redor, que o maior sonho de sua criadora era conhecer New York City. Que realizara por ela. Por instante. Mas que algum dia haveria de traze-la para a cidade. Enchia de esperanca seus olhos castanhos brilhosos pela luz cafona do botequim disfarcado de lounge. Enquanto eu, ainda guardava meu contrabaixo no case, recolhia minhas baguncas pelo palco, recebia a meia duzia de aplausos do coro. Pensava no aluguel que estava para vencer. Pensava em como seria interessante se alguem da familia estivesse na plateia.
Havia me esquecido de Carina. Mesmo tendo aquele rosto inesquecivel, com aquelas sardas tao intensas quanto as de minha mae. Uma maquiagem natural. Quando de repente, ouvi alguem me perguntar meu nome. A voz, tao doce como um sopro de veludo so poderia ter vindo de alguem alvo e branco. Alguem como Carina. Depois de nao obter resposta foi logo se apresentando. Disse ainda ser uma grande apreciadora da cultura brasileira. "Minha avo assiste a todas a novelas. Adorou O Clone, a mais recente. Conhece?" E eu ainda meio atordoado com tanta beleza e informacao ao mesmo tempo, menti dizendo que uma musica que compus fazia parte da trilha sonora. Inventei tres tons e perguntei se sabia qual era. Ainda emendei: e a faixa numero 14 do CD.
Desconversei, falei sobre o tempo. E ela me convidou para uma cerveja. Aquela altura da noite, o que mais precisava era tomar uma gelada. E alguem com quem pudesse conversar horas sem me lembrar da condicao menor que me encontrava. Sentamos ao balcao, ela do meu lado direito. Vestia uma calca preta, colada ao seu corpo semi-gordo. Daqueles anti-fashion. Tudo o que mais aprecio.
Depois de varias rodadas, quase um maco de cigarros no cinzeiro de vidro barato e um pouco de intimidade, agarrei-a com toda forca. Pensava: essa e a mulher que preciso. E com ela que quero criar uma familia. Quero meus filhos falando russo e com ancestrais lenianos. Carina confessara suas opinioes politicas pouco antes. Estava bebado, isso sim.
Acabamos os dois, por subir as escadas do muquifo ao qual vivia. Um a escorar o outro por entre vinte e seis degraus que nos separavam de minha cama. Bem que tentei oferecer-lhe um saque so para mostrar o meu nivel cultural amplo, mas Carina queria mesmo era me possuir. Arrancou minha camisa havaiana que me custou sessenta dolares como se abrisse um presente de aniversario. A forca foi tamanha que, de relance, vi os botoes de madeira unica espalharem-se pelo chao. Mesmo sabendo que na manha seguinte ficaria horas tentando encontra-los, deixei quieto. Depois de fudermos e ate mesmo eu confessa-la que a faixa 14 do CD da novela nao era de minha autoria, o mesmo vazio que me assombrara antes de conhece-la voltou. A unica ideia que me passava pela cabeca era como me desfazer dela. Tudo tinha sido otimo. Ela fora uma garota fantastica. Prestativa. Mas ja era manha; e eu tinha muito a fazer. Compromissos inadiaveis. Minha roupa suja estava acumulada, as tartarugas estavam famintas ja. Completaria dois dias que as alimentara pela ultima vez. Tambem precisava falar com alguns amigos no Brasil. E aquela russa estatica em minha cama, esperando que eu a propusesse um casamento. Ou nao! Pensando em alguma maneira de me dizer quao inexperiente eu era, sem me ofender.
A verdade e que Carina entrou num taxi as seis e meia da manha consciente de que nao teria noticias de mim tao cedo. Deu-me um beijo longo de despedida e saiu pela porta rumo aos interminaveis degraus. Nunca mais nos encontramos apesar de viver em uma cidade pequena.
E ca estou agora, neste frio de Janeiro. Sentado num balcao de uma Deli, engolindo este cafe a seco, tentando me aquecer. A neve que cai la fora faz-me lembrar de Carina. A linda loira que por alguns instantes fez minha cabeca. E que agora discute algumas leis banais da comunidade local com um rapaz descendente de portugueses bem a minha frente. Nascido e educado as normas americanas ele e inteligente o suficente para fazer uma faculdade e ceder sua vida a esta russa aproveitadora. O filho dele e que nascera bastardo de avos vividos nos tempos de pos-comunistas. E eu continuarei por aqu, a procura de algo para me satisfazer.

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