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Location: São Paulo, SP, Brazil

opinativo, reclamão, relaxado, fumante, irônico, sincero, emburrado, feliz.

Tuesday, March 14, 2006

todo artista brasileiro se envolve com alguma russa

Ela e linda! E loira. Chama-se Carina Svraslavana. Muito russa. Chamou minha atencao naquela noite calorosa de julho. Era uma quarta-feria quando a vi passar. Todos vimos ela ir e vir, um direito que, para ela, parecia divino. Seus olhos caramelo denunciam a tristeza que guarda no peito. Carina sofre porque nao carrega consigo papeis. Carina sofre pois sua mae, uma cidada de Moscou, nao tem trabalho. Ou pior, perspectiva.
Carina me disse, na mesma noite em que a vi passar como se o mundo girasse ao seu redor, que o maior sonho de sua criadora era conhecer New York City. Que realizara por ela. Por instante. Mas que algum dia haveria de traze-la para a cidade. Enchia de esperanca seus olhos castanhos brilhosos pela luz cafona do botequim disfarcado de lounge. Enquanto eu, ainda guardava meu contrabaixo no case, recolhia minhas baguncas pelo palco, recebia a meia duzia de aplausos do coro. Pensava no aluguel que estava para vencer. Pensava em como seria interessante se alguem da familia estivesse na plateia.
Havia me esquecido de Carina. Mesmo tendo aquele rosto inesquecivel, com aquelas sardas tao intensas quanto as de minha mae. Uma maquiagem natural. Quando de repente, ouvi alguem me perguntar meu nome. A voz, tao doce como um sopro de veludo so poderia ter vindo de alguem alvo e branco. Alguem como Carina. Depois de nao obter resposta foi logo se apresentando. Disse ainda ser uma grande apreciadora da cultura brasileira. "Minha avo assiste a todas a novelas. Adorou O Clone, a mais recente. Conhece?" E eu ainda meio atordoado com tanta beleza e informacao ao mesmo tempo, menti dizendo que uma musica que compus fazia parte da trilha sonora. Inventei tres tons e perguntei se sabia qual era. Ainda emendei: e a faixa numero 14 do CD.
Desconversei, falei sobre o tempo. E ela me convidou para uma cerveja. Aquela altura da noite, o que mais precisava era tomar uma gelada. E alguem com quem pudesse conversar horas sem me lembrar da condicao menor que me encontrava. Sentamos ao balcao, ela do meu lado direito. Vestia uma calca preta, colada ao seu corpo semi-gordo. Daqueles anti-fashion. Tudo o que mais aprecio.
Depois de varias rodadas, quase um maco de cigarros no cinzeiro de vidro barato e um pouco de intimidade, agarrei-a com toda forca. Pensava: essa e a mulher que preciso. E com ela que quero criar uma familia. Quero meus filhos falando russo e com ancestrais lenianos. Carina confessara suas opinioes politicas pouco antes. Estava bebado, isso sim.
Acabamos os dois, por subir as escadas do muquifo ao qual vivia. Um a escorar o outro por entre vinte e seis degraus que nos separavam de minha cama. Bem que tentei oferecer-lhe um saque so para mostrar o meu nivel cultural amplo, mas Carina queria mesmo era me possuir. Arrancou minha camisa havaiana que me custou sessenta dolares como se abrisse um presente de aniversario. A forca foi tamanha que, de relance, vi os botoes de madeira unica espalharem-se pelo chao. Mesmo sabendo que na manha seguinte ficaria horas tentando encontra-los, deixei quieto. Depois de fudermos e ate mesmo eu confessa-la que a faixa 14 do CD da novela nao era de minha autoria, o mesmo vazio que me assombrara antes de conhece-la voltou. A unica ideia que me passava pela cabeca era como me desfazer dela. Tudo tinha sido otimo. Ela fora uma garota fantastica. Prestativa. Mas ja era manha; e eu tinha muito a fazer. Compromissos inadiaveis. Minha roupa suja estava acumulada, as tartarugas estavam famintas ja. Completaria dois dias que as alimentara pela ultima vez. Tambem precisava falar com alguns amigos no Brasil. E aquela russa estatica em minha cama, esperando que eu a propusesse um casamento. Ou nao! Pensando em alguma maneira de me dizer quao inexperiente eu era, sem me ofender.
A verdade e que Carina entrou num taxi as seis e meia da manha consciente de que nao teria noticias de mim tao cedo. Deu-me um beijo longo de despedida e saiu pela porta rumo aos interminaveis degraus. Nunca mais nos encontramos apesar de viver em uma cidade pequena.
E ca estou agora, neste frio de Janeiro. Sentado num balcao de uma Deli, engolindo este cafe a seco, tentando me aquecer. A neve que cai la fora faz-me lembrar de Carina. A linda loira que por alguns instantes fez minha cabeca. E que agora discute algumas leis banais da comunidade local com um rapaz descendente de portugueses bem a minha frente. Nascido e educado as normas americanas ele e inteligente o suficente para fazer uma faculdade e ceder sua vida a esta russa aproveitadora. O filho dele e que nascera bastardo de avos vividos nos tempos de pos-comunistas. E eu continuarei por aqu, a procura de algo para me satisfazer.

o aniversário do fotógrafo

- A mamãe trouxe um presente tão lindo! Abra agora na frente dos amigos.
- Olá mãe. Que bom que veio. Pensei...
- E como deixaria de vir? Sabe como sou. Sempre apareço, nunca na hora exata.

A essa altura, Bernardo ja havia acompanhado uns dois casais de amigos até a porta. O clima, para o fotógrafo, era de até mais, quando ela chegou. Em um canto da sala, Marina contava à Paula sobre um tal filme que vira na véspera. Um grupo de jovens ria alto na cozinha. A fumaça que empestiava a área definitivamente não era de bolo queimado. Mas tudo estava sob controle. Afinal, era sábado. E nos apartamentos da Vila Madalena, a tolerância era maior aos finais de semana.
O cuco da sala soava meia-noite quando as luzes se apagaram. O fotógrafo, coitado, não entendeu nada. As palmas começaram a aumentar puxados pelas mãos de sua mãe. "Sempre envergonha-me", pensava irritado. "Há trinta anos que aguento tudo isso. Nunca muda". Tolo, Bernardo enchia sua cabeça de raiva. Usava sua mãe por ser mais fácil. Depois de soprar as intermináveis velas que cobriam um bolo Prestígio, o seu predileto, esquivou-se por um momento, escondendo-se em seu quarto.
De fundo escutava a Robertinha gritar:
-Cadê o aniversariante? Queremos bolo. De quem será o primeiro pedaço? Apareça trintão.

Ela me paga. Essa anã disfarçada de amiga. Ressoava dentro de si. Para ele, aquele circo de horrores que acontecia em sua própria casa serviria somente para tornar ainda mais miserável sua vida. Estava com a cabeça atolada de trabalhos intermináveis. Tinha o prazo de sua mostra praticamente estourado. Dois dias! Quarenta e oito horas para conseguir preparar o material e enviar. Ai então torturou-se mais uma vez com a idéia de que alguns amigos ja haviam pedido para esticarem-se por la mesmo. O aniversariante estava perdido. Passou de anfitrião à gerente de albergue de pobres. Isso que dá ter amigos que moram em cidades satélites.

Depois de alguns minutos voltou e encontrou a sala quieta, o bolo em pedaços, o barulho do gás do refrigerante ecoando aos copos. Só pensava em como começar a limpar a bagunça. E a vaca da Robertinha a distribuir pela sala vários flyers do after que rolaria na Bandeirantes. Bernardo começou a se lembrar qual dos amigos que ficariam para a noite. E bemq ue tentou arrumar carona para eles. Mas nada se encaixava. O Tadeu e a Marina são de São Roque e a Rebecca é de Guarulhos. Estou perdido.

Por fim, decidiu que a festa seria a melhor alternativa. Desestressar um pouco, conversar com os amigos, dar um pouco risada. E por que não? Comemorar o aniversário. Depois de delicadamente despitar a mãe, que não desgrudava da Robertinha, já totalmente entorpecida, o fotógrafo partiu em seu carro rumo ao interior.

-Quem é que toca?
-Interessa?
-Claro que sim, senão não perguntava.
-Ihhh... Eu é que não quero fazer trinta anos! Que mal humor...
-Mas ta perto não tá?
- Não, pelo mapa nos falta umas cinco sinalizações e sem contar que...
- Quero dizer o seu aniversário.
- Não vamos tocar nesse assunto, você sabe, eu não gosto.
- Até quando vai levar a vida a base de bebida e droga? Daqui a pouco fica pra titia...
- Qual o seu problema?
- Nenhum, o troco está dado. Isso é por ficar tentando levar a minha mãe conosco. Pensa que não vi vocês conversando ali, bem juntinhas... E que ainda tive que barrá-la do after. Não muda você também. São quantos anos de atormentação já?
- Be, você sabe que eu amo a sua mãe. Tipo assim, eu queria muito que ela fosse. Não consegue se acertar com ela! Nem parecem família. E são quinze anos já, não se lembra?
- Agora vem você com o discursinho fajuto de família... Falou então Roberta Amo Minha Família Gonçalves. Nossa! Mas que relacionamento divino tem com seu pai. E a sua mãe então? Realmente essa foi boa. Às vezes me esqueço que te conheço a tanto tempo...
- Cala a boca e aumenta o som. Que hoje vamos até as nove, no mínimo. O Pet Duo vai dar o som lá pelas seis.
- Eu to ficando velho para essas coisas. Amanhã tenho muita coisa para fazer. Vou ficar o dia inteiro no estúdio e você? Eu te digo: dormindo até as cinco da tarde, como sempre fez.
- Eu te prometo que fico lá com você.
- Diz isso porque sabe que não deixaria. Você só me atrapalha, isso sim.

Depois de trinta minutos, chegaram à festa. Todos se dispersaram. Assim é melhor, pensou. Por lá encontrou uma meia dúzia de conhecidos. Jogou conversa fora, falou sobre o trabalho. Estava a bocejar quando viu Robertinha pulando feito louca na pista.

-Está bem?
-Sim. Ótima! Cara, eu te amo muito viu, não fica assim. Dá um soriso. Ah, já sei, vem aqui.
-Eu estava indo lá no bar pegar uma aguá...
- Nossa, água, vamos. Vamos sim.
- Tá com o que em cima? Te conheço de outros afters.
- Então, tipo eu quero te dar um presente.
- Mas já me deu. Adorei a camiseta, por sinal.
- Aquela foi só uma lembrancinha. Quero te dar uma outra.
- Você viu a Marina e o Tadeu por aí?
- Hã? Quem? Toma. Special Edition.
- To fora. Vou dirijir daqui a pouco...
- Mas ainda são três. Vai ficar para o Pet Duo, não vai?
- Quer saber? Passa aí.

Já passara das sete horas quando olhou o relógio. Não parava de perguntar aos conhecidos pela Robertinha. Nem mesmo a Rebecca estava por lá. O sol estava começando a se fortalecer quando viu Marina correr em direção ao banheiro.

-Peraí. Aonde se meteu a noite inteira?
- Já te explico. Deixa eu só fazer xixi.
- Mas cadê o Tadeu? E a Robertinha?
- A Robertinha vi agora mesmo. O Tadeu pegou carona com o Fabricio. Já volto.

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-Mas então?
-Nossa cara. O set foi muito bom...
-Nem me diga.
-Cadê a galera?
-A Rô estava ali com o Uca. Esses dois ainda casam.
-Essa está perdida mesmo...
-E eu fiquei com o Sasha, um amigo nada a ver que encontrei por aí.
- Estão prontos? Estou partindo.
- Ah, então... eu vou ficar. Faz assim, amanhã, quando acordar, eu te ligo. Para passar na sua casa e pegar minhas coisas, pode ser?
- Mas liga antes porque eu estarei no estúdio. Muito trabalho.
- Nossa. Deixa pra segunda... vai descansar aniversairante. Vi BEM você ali uma hora. Todo curtindo.
- Não esquece de ligar.
- Tá!
-Ah, avisa aquela anã por mim.
- OK! Tchau. Bom trabalho!

No caminho de volta, lembrou-se da Rebecca. Já era tarde para qualquer coisa. Ou cedo. Parou na padaria da esquina de casa. Tomou um pingado e comeu um pão. Folheou o jornal antes de começar a preparar suas coisas. Deparou-se com a casa pós-festa. Jurou a si mesmo nunca mais abrigar tanta gente porca junta. "Meu próximo aniversário eu faço num bar. Quanta garrafa... Ah..."
O jornal estava interessante. As matérias e os artigos iam passando e o fotógrafo nada de arrumar seus materiais. Eram já onze e quinze quando começou a se sentir cansado. Decidiu que não trabalharia no domingo. "Dia santo!" Ou que o faria quando acordasse. Afinal, o estúdio era dele. Não haveria problemas em madrugar a próxima noite e acabar de vez com o que sobrara. Deitou `a cama. Fez duas ligações. Certificou-se que tudo estava bem e caiu num sono profundo.
O aniversário do fotógrafo, esse triste artista que se esconde atrás de seus tarbalhos, encerrou como começou. Com pensamentos isolados, depressivos, descontentes. Ainda assim, produtivos. O próximo trabalho para ele, já estava em sua cabeça. Antes mesmo de acabar aquele que originou todo o nervosismo, Bernardo matutava com suas lentes.

Hollidays

Hoje e a vespera da vespera de Natal. Quanta emocao!! Nao mesmo. Ha sim, muito o que fazer. Quando se decidi passar o Natal na companhia de voce mesmo, num pais aonde Festas sao sinonimos de compras, tudo se transforma em desgraca. Alem do fator: "lugar estranho e solidao", ha tambem um pequeno e indispensavel detalhe: "Cozinhar o que??". Mas a ceia ta tao longe, que e melhor continuar a sonhar com mangas suculentas e o bom e velho peru... tudo aquilo, que no caso, certamente faltara.
Parto entao para a parte estetica da festa. Deparo-me com um pensamento: sera que coloco aquela calca que comprei h'a dois meses ou fico de pijama? Uso perfume ou nao? Corto as unhas ou poso de gaviao na fase idosa ? Para que ? Para quem ? Minha mae ta em Portugal, o resto da familia esta no Brasil! Quer saber? Acho que nem a barba eu farei. Passarei no melhor estilo "roots". Do jeito que o mundo me deixou. De pijamas, camiseta apertada, meias extra-grossas e cabelos molhados.
A noite sera longa. Ainda mais quando se esta sozinho... Procuro dentro da cachola algo para entreter-me durante. Ja que sei que o bom velinho nao aparecera por aqui carregando seu saco vermelho e inchado de presentes embrulhados em papel laminado com etiquetas enderecadas ao Sr. Carvalho, vou embrulhar no papel aluminio alguns dos artigos que adquiri durante o tempo que estou aqui. So nao usarei muito papel porque senao a minha roommate, quando voltar do Brasil, vai descarregar um caminhao de melancias em cima de mim. Por quesitos, tamanho e satisfacao, estritamente nessa ordem, embrulharei meus oculos escuros de sete dolares e meu bone de cinco. Colocarei embaixo da arvore da querida companheira tao grande quanto o apartamento. Fantastico! Mais uma tarefa realizada.Amanha, na volta do trabalho, passarei no mercado para comprar a esperada ceia.
Depois de analisar atentamente a minha lista de aptidioes culinarias de cardapio me restou: macarrao, check, molho de tomate, check, carne da promocao, check, queijo tipo parmesao "original" ralado, check, six-pack Miller, check. Um sorvetinho de cookies 'n cream, check. E para finalizar um maco de cigarros, check! Como e bom ser economico... "O que mais nao poderia faltar nesse natal?", penso eu. Filmes e jogos de videogame ja estao em casa. Acho que deu.
Vespera de natal: 2 p.m. Saio do trabalho, feliz e contente, e aumento o volume do som. Nas radios so da Jingle Bells... Mais depre que isso so o Coral das Meninas Orfas de Petropolis. "Passa na liquorstore e garante um cartao telefonico de cinco dolares, o negocio pode apertar!!" meu cerebro me dizia. E as minhas maos nada de se manifestarem. Nao conseguem mudar as direcoes que lhe foram ordenadas. Cerebro insiste, mao persiste. E assim vai indo ate chegar ao mercado que fica do outro lado da rua da loja de bebidas. Depois de seis horas de puro tedio alimentado por desinterssantes historias natalinas dos companheiros no restaurante, a ultima coisa que quero e atravessar a rua para comprar um cartao que me fara chorar. Nao sei porque mas desde que mudei para ca sinto uma disposicao enorme para realizar tarefas. Vai ver a influencia ativa dos americanos aliada a maravilhosa dieta junk food me conquistou. Saindo do mercado ainda resta uma esperanca. Eu posso simplesmente fazer uma U-turn nesse cruzamento e parar na Liquor. Sem chance de reacoes...
Chego em casa eu, duas sacolas de supermercado numa mao e o meu six-pack na outra. Arranco logo a minha roupa, arrumo tudo na geladeira e ligo a televisao. Agora e so esperar Ele chegar. Os presentes ja estao na arvore, o edredon ja me cobre parcialmente, todos os tres controles ja estao comigo. Um da TV, outro do cabo e o outro do DVD. Merda! Esqueci de colocar o filme. Ai ai ai ai ai. La vai o gordo seminu levantar. Arrasto o edredon comigo para ter a certeza de que frio nao passo. Pego todas as possibilidades de entretenimento em minha mao: Kill Bill, Kill Bill vol.2, Amelie, Lost in Translation, Run Lola Run, Resevouir Dogs, Show da Cher- Que que e isso??, Finding Nemo, Minority Report. Ate que enfim algo que nunca vi. Vai esse mesmo para comecar... Depois de dar o play eu ja comeco a imaginar como sera o meu reveillon sem assistir a virada do Faustao na Globo.Thank you Jesus... God bless Arthur

de pai para filho

Num dos frequentes almocos de sabado, Mario pergunta ao pai:
- O Chico Buarque nao e aquele homem que canta em casa todo domingo a tarde?
- Sim! O papai escuta sempre.
- Ah ta, responde o menino. Voce e amigo dele? Insisti Mario.
- Nunca vi mais gordo. Alias, vi uma vez ha muitos anos em Paris. Voce nem nascido era. Porque perguntou isso?
-Nada nao. Sei de alguem que nao e amigo dele. Agora sao dois; tres contando comigo.
- E quem e que voce conhece que nao e amigo do Chico Buarque?
- Eu nao disse que conheco. Disse que sei quem e. Muito diferente.
- Esta bem, mas quem e?
- O marido da mulher da praia.
- Que praia? Esta louco garoto?
- Nao! Eu mesmo vi a reportagem.
- Explique-se agora!
- Um dia desses li nessa revista que o marido da moca que estava na praia com o tal Chico Buarque nao e amigo dele. So isso.
Sem muito entender, Antonio exclama:
- Depois de comer liga pro Mauro e vai jogar um pouco de bola, ou nadar. Nao fica trancado nesse quarto lendo o que nao deve, vai atrofiar o cerebro, isso sim…
- Ta bom.

A senhora e o tempo

A cara é de quem esta sempre aflita. Quando a vejo passar, Sra. Nunes como é conhecida na região, procura algo. A insatisfação transparecida em sua feição causa-me curiosidades. Seu mundo é outro; habita esse à passeio, definitivamente. Quase sempre a vejo na Adams, ao pé do restaurante. Quando cruzamos olhares, sempre me pergunta sobre vários assuntos; entre eles, o clima da cidade e a quantas anda o meu trabalho. Se estou ocupado ou não. Cansado, satisfeito. A impressão é que toda essa preocupação não passa de um gesto carinhoso. Apesar de seus olhares profundos e penetrantes.
O visual da Nunes é, para os padrões do lugar, até que aceitável. O povo desta comunidade portuguesa, bem usam pedaços de roupas que o servem para tapar o corpo. Não há industria fashion como no mundo moderno. Ou se há, é algo limitado. As blusas parecem contar histórias de gerações combinando ao comportamento de todos aqui.
Ela vive há uma quadra da frangaria, vez ou outra manda levar a sua casa no 820 da Raymond Boulevard, first floor. E segundo meus chefes, sempre pergunta se sou eu ou o Samuel quem levará. Já atendi diversas chamadas suas.
Quando liga, primeiro quer saber o cardápio. As vezes pede uma sugestão, mas nota-se que faz parte da rotina. Opta constantemente pela tradicional ave. No fim indaga o preço e acrescenta ao recepcionista as “duas dolinhas” do entregador. “Mas não demora? Pois sim?” “Não se preocupa senhora.” Por viver tão perto, sua ordem é a primeira a ser entregue. Nem carro me é necessário. Sempre carrego o rádio no bolso. Chega a ser prazeroso.
Manda-me entrar a casa e pousar a encomenda à mesa. Em cima daqueles protetores específicos para comida quente. Os mesmos que lembra a minha avó e suas enpreitadas culinárias. O dinheiro está separado ao lado do movél da cozinha e ela faz questão de conferi-lo na minha frente. Nunca esquecendo-se dos extras. Agradeço, jogo um pouco de conversa. Ela tece um comentário doce sobre a nora brasileira. A mim parece mais uma desculpa para se excluir do racismo comum. E na verdade é bom ouvir. Usa provérbios populares para desconversar, abre-me a porta e deseja um bom dia.
Ligo o rádio novamente, aperto meu passo e rio-me por dentro imaginando como se porta perante aos outros. Ora mãe devota, ora mulher exemplar, ora sogra perfeita. Mas sei que isso tudo não passa de teatro. No fundo, dentro das suas caraminholas, ela comanda um espetáculo majestoso. Tudo parece ser muito fácil a ela. Que está a procura de algo muito distante. E talvez nunca encontre. Quem sabe não seja essa sua grande tarefa?

A Manga de Chinatown

Desde criança aprendi que comida boa é aquela que faz mal ao corpo. Ou pelo menos assim fui educado. Não culpo ninguém, além de mim, por gostar de comidas "não-saudáveis", realmente o prazer que me proporciona acaba sendo maior do que ter um corpo que funciona bem. Como todo ser humano, sinto gosto por alguns alimentos saudáveis também. A manga, na escala, está entre os cinco melhores alimentos do mundo. Se eu tivesse perdido em uma ilha deserta com uma lâmpada e um gênio, quem me desse o direito a fazer três pedidos, definitivamente eu pensaria em manga. Só não tenho certeza se realmente ficaria com ela. Dependeria da fome.
Lembro-me das ceias de natal da infância, sempre tão saborosas e apetitosas. E nessas ceias, sempre havia aquela travessa de mangas cortadas em gomos que mais parecem besouros. Adorava os besouros de manga. Até que descobri que a melhor maneira de saborear a fruta, era comê-la diretamente do pé, com um pano de prato numa mão e a faca na outra. Se não me falha a memória, eu comi muitas mangas nos pés de uma cidade bem pequena do interior de São Paulo, Santa Maria da Serra, ou como diria uma amiga moradora de lá, Saint Marri de la Serra. Lembro dos fiapos que grudavam aos meus dentes e eram impossivéis de arrancar. Lembro do pano de prato completamente laranjas, sujos, grudentos. Essa fruta realmente faz-me recordar ótimos momentos.
Os anos passaram-se, a infância ficou apenas na memória, entretanto, o desejo pela fruta permaneceu. Ainda é uma das poucas que me causa ânsia. Sempre que vejo, não importa aonde esteja, paro, vejo, penso e levo. Se bem que de uns tempos para cá, nem mais isso eu faço. Já me desiludi tanto que hoje, a manga tem que fazer por merecer. Estar apresentável. Suculante, eu diria.
E por esses dias, encontrei num lugar totalmente inusitado, mangas rosas. Daquelas que até parecem de cera. Não exitei. Comprei-a por uma fortuna! Ainda assim, pagaria o dobro. Um tiro no escuro, pensava. Mas no fundo sentia que aquela seria A manga. Aquela que estava buscando há meses. Aquela que não encontrei na Califórnia de jeito nenhum. Que busquei em mercados chineses, mexicanos, equatorianos, brasileiros, vietnamitas, tailandeses, japoneses. Todos esses mercados de nacionalidade de imigrantes. Porque americano acha que Snapple é suco. Se não estão acostumados nem com suco, quisá frutas. Desculpa a ignorância, eles têm no suco de laranja no mercado!
Já comprei umas cinco lebres achando que era gato. Cada Manga ruim. Além de secas, amargas. Puta que pariu! Se a fruta está seca, pode-se decontar, mas amarga não pode!
Acabei por trazer a manga lá da barraquinha do seu Ching Ling no meio da Mott Street. No caminho de volta, a fruta não me saia à cabeça. A estampa estava tão radiante que nem na música estava prestando atenção. Depois da viagem, voltei para casa e o desejo momentâneamente passou. Acabara de almoçar um enorme prato de camarão, cogumelos e brócolis refogados. Comida só dali a quatro horas.
A noite chegou, trazendo consigo a fome. E a manga, coitada, dentro da mala ainda, enorlada numa sacola plástica próxima ao meu casaco. Por esquecimento acabei por jantar fora. Uma comida péssima, por sinal. Ao final, algo me atiçava. Sentia que faltava algo para me saciar. Resolvi pedir um pavê de sonho de valsa que estava à mostra na geladeira da lanchonete. Na primeira colherada, senti um gosto amargo. Um gosto estragado. Senti-me mal! Expliquei a situação ao atendente e devolvi a sobremesa. Foi então quando me lembrei da manga na mochila.
Ao chegar em casa, subi direto ao quarto. Passei na cozinha, agarrei um pano de prato e uma faca, e devorei a iguaria por meia hora. Nem ao menos prestei atenção no filme que passava na televisão. Se a casa estivesse em chamas, ainda assim não ligaria. Cada mordida era única. Extremamente prazerosa. Ao final, joguei o caroço fora. Acendi um cigarro e por tantas outras vezes, comia a fruta em minha mente. Jurei a mim que na próxima folga voltaria a barraca do Seu Ching Ling. A verdade é que nunca mais botei meus pés lá. Entretanto, um sentimento carrego comigo. De que vontade eu não passo mais. Quando bater o desespero, pego o trem, pego o metro, ando cinco minutos, mas volto com uma manga na mochila. Não qualquer, mas a manga de Chinatown.